A Patrícia quis uma árvore de natal, mas não gostava de nenhuma das que estavam nas lojas. Por isso decidiu fazer a sua própria. Como não tinha materiais ao pé dela, como cubos, paralelipípedos, círculos com raios e circunferências perfeitas, Patrícia não podia construir uma árvore. Então pintou uma na parede. Ora também não tinha lápis coloridos. Faltava-lhe um verde iluminado e outro mais escuro para a sombra das folhas, vermelho e amarelo para as bolas, castanho claro para o tronco e castanho escuro para a terra. E azul escuro, para o céu. Mas a Patrícia não desistiu e escreveu TRONCO de baixo para cima, com letras grandes. Depois escreveu MUITAS FOLHAS em cima, e TERRA CASTANHA e VASO ESCURO abaixo. Como era pequenina, escreveu CEU AZUL na ponta dos pés, e o céu ficou muito torto e sem acento no e. A Patrícia estava muito feliz com a sua árvore, mesmo que o céu fosse pequenino e torto. Quando as folhas caissem o tronco ia ficar grande demais, e era feio, pensou. Pois apagou o tronco e escreveu um mais pequeno. Já não eram precisas tantas folhas verdes, e apagou algumas. Se agora caissem menos folhas, a terra seria mais castanha e corria o risco de se confundir com o tronco. Mas Patrícia nunca deixaria que isso acontecesse, e acrescentou que o castanho da terra era castanho FORTE. Também escreveu um vaso mais pequeno. Agora havia tanto espaço que podia escrever CÉU AZUL sem estar em bicos dos pés. O céu era muito grande e parecia que era um retrato dele e não da árvore. Se pintasse uma ainda mais pequena, podia ser que atraísse a atenção por ser tão pequenina. Escreveu menos folhas verdes e escreveu TRONCO mais fininho. O céu estava enorme. Agora faltavam os presentes. Patrícia não os tinha que desenhar, porque já existiam. Mas eram muito grandes e não cabiam debaixo da árvore. E se uma árvore de Natal não tem presentes como é que se sabe que é uma árvore de Natal? Podia escrever um título grande que dissesse “árvore de natal”, mas assim já não era diferente daquelas das lojas, que também dizem árvore de Natal, vende-se. Patrícia decidiu que aquela seria uma árvore como qualquer outra, mas assim tinha de esperar que o Natal passasse. Então juntou os presentes e deitou-os à frente da árvore, para que ninguém a pudesse ver.
Dezembro 31, 2007
Outubro 19, 2007
Rio-me com os teus lábios e os meus mirram, porque não ficam com nada para fazer. Repetes a tua história e procuro concentrar-me no que dizes. Tens a tua mão na minha e dizes-me que estás apaixonada – que não ligas nenhuma ao que dizem dele porque te oferece flores. Agora não sei se as tuas mãos cheiram a flores ou a esquecimento. Não sei se andaste a meter as flores numa jarra ou se andaste a esconder a vida naquelas caixas. Seja como for, já morreram. Mas parecem abertamente vivas. Uma fita violeta jaz pesada sobre tantas cartas dispersas. Que a relação com os teus pais tinha voltado ao normal. Sentias-te bem por isso, adiantaste depois de um silêncio. Eu sorrio e perguntas se tenho andado a dormir bem. Pois é, tenho olheiras, bem sabia que ias reparar – ou teria dormido um pouco mais. Sinto-me cansada porque não me sento quando amo – ando por aí, sempre a andar para lá. E agora estou sentada a ouvir-te e sinto que podia continuar para aí a andar e ninguém me apanhava. Mas tu continuas a falar e eu não vou para lado nenhum.
Agosto 29, 2007
Era manhã clara, de odor baço e macilento. De varandas abertas e ruas vazias. Um pássaro voou sobre a igreja de Santo António, à Sé, e veio pousar nas asas madrugadas de uma mendiga. Só, àquele tempo, não tendo a quem pedir. Uns passos à frente, diante do miradouro de Santa Luzia, ergue-se o nevoeiro das cores com que os homens cobrem a indiferença. O contrário da diferença. Ou aquela diferença entre mim e ti, entre o sol e a fronteira imaginária que separa o rio do céu. A imaginação que nos dá silêncio. É ele que separa o céu do rio; o silêncio que escorre pelas ruas calcetadas de uma cidade isolada, e só por isso diferente. Esquecendo os caminhos idênticos por onde outros já andaram. Ou os dedos que acariciam a alma julgada cidade, a inebria de comunhão vacilante, e a despeja sobre as ondas falsas de um Tejo mar. As tascas, ressacadas de um rescaldo enfermo, abrem as portas e fixam os toldos. O frio, que em pequenas gotículas de ar se mistura no Verbo, afasta a carne da combustão do Tempo.
Um rio de água de chuva (do dia anterior) flui na direcção da sarjeta. O padre esconde, numa gabardina creme, os dois dias que a vida tem nos salmos reciclados. O rio enche-se de cores que gritam por liberdade (e a liberdade veste as coisas que vemos, isola-as para as tornar diferentes; a liberdade nunca despe) e as pessoas caminham no encalço dos carris do eléctrico 28. Os vidros embaciados, os gritos desagradáveis e as buzinas estridentes sobem a encosta vagarosa de uma cidade congestionada. A pedinte agora pede. As casas vazias que o Tejo beija cintilam brevemente a certeza do incerto. E uma mão envolve a minha e inscreve na linha mais profunda que a madrugada é uma só, e que hoje foi madrugada.
Um rio de água de chuva (do dia anterior) flui na direcção da sarjeta. O padre esconde, numa gabardina creme, os dois dias que a vida tem nos salmos reciclados. O rio enche-se de cores que gritam por liberdade (e a liberdade veste as coisas que vemos, isola-as para as tornar diferentes; a liberdade nunca despe) e as pessoas caminham no encalço dos carris do eléctrico 28. Os vidros embaciados, os gritos desagradáveis e as buzinas estridentes sobem a encosta vagarosa de uma cidade congestionada. A pedinte agora pede. As casas vazias que o Tejo beija cintilam brevemente a certeza do incerto. E uma mão envolve a minha e inscreve na linha mais profunda que a madrugada é uma só, e que hoje foi madrugada.
Agosto 25, 2007
A beleza é, de todos os conceitos filosóficos, o mais irónico. A ironia, por sua vez, é o embaraçamento humano que melhor define a beleza. Na base da maioria das definições de ironia está a ideia que nós mudámos e que isso gerou uma contradição. O exemplo clássico seria este: é irónico que, tantos anos depois, pessoa x acabe por fazer algo que é o contrário do que há muitos anos disse. Mas a ironia não acontece porque nós mudamos. Acontece porque o mundo mudou e nós não. Imaginemos o nosso corpo transparente e quieto. Através dele flui o mundo. Tudo aquilo que antes tinhamos à esquerda agora está à direita; onde antes uma mulher corria para os nossos braços, agora desprende-se de nós e foge-nos.
A linguagem que usamos serve para descrever o mundo como ele era. Mas o mundo mudou. Passou, aliás, por nós. A ironia é o choque por o mundo poder passar por nós.
Como dizia, a ironia é a sensação que o mundo passou e nós continuámos no mesmo sítio. Esta sensação é a mesma que uma mulher bonita experiencia: durante anos, é uma mulher bonita. Depois passa apenas a ser mulher. A beleza fazia tanto parte dela que ela se definia assim; e há um momento em que a beleza já passou, mas ela ainda não percebeu. E, nesse momento, a ironia é extrema.
- Chegou a hora de saires – afirmou, logo após abrir a porta.
Ela virou a cara na sua direcção.
- Como? Mas esta casa é minha – respondeu, atónita.
- Já cumpriste a tua função – acedeu a esclarecer, com claro enfado. Agora é tempo de dar lugar a outra sedutora deitada sobre o sofá, que olhe na minha direcção e deixe o resto do corpo de costas.
- E o que faço aos boiões de creme que ainda não acabaram? E ao rimmel?
(e o gato? o gato, como a linguagem dela, é apenas uma almofada)
Podemos apenas imaginar as coisas que ela lhe faria se lhe fosse dada uma última oportunidade. As coisas que nunca tinha antes feito. Acreditaria, uma primeira vez, no amor – que precisaria de ficar com ele para ficar com tudo o resto. E, isso, é irónico.
A linguagem que usamos serve para descrever o mundo como ele era. Mas o mundo mudou. Passou, aliás, por nós. A ironia é o choque por o mundo poder passar por nós.
Como dizia, a ironia é a sensação que o mundo passou e nós continuámos no mesmo sítio. Esta sensação é a mesma que uma mulher bonita experiencia: durante anos, é uma mulher bonita. Depois passa apenas a ser mulher. A beleza fazia tanto parte dela que ela se definia assim; e há um momento em que a beleza já passou, mas ela ainda não percebeu. E, nesse momento, a ironia é extrema.
- Chegou a hora de saires – afirmou, logo após abrir a porta.
Ela virou a cara na sua direcção.
- Como? Mas esta casa é minha – respondeu, atónita.
- Já cumpriste a tua função – acedeu a esclarecer, com claro enfado. Agora é tempo de dar lugar a outra sedutora deitada sobre o sofá, que olhe na minha direcção e deixe o resto do corpo de costas.
- E o que faço aos boiões de creme que ainda não acabaram? E ao rimmel?
(e o gato? o gato, como a linguagem dela, é apenas uma almofada)
Podemos apenas imaginar as coisas que ela lhe faria se lhe fosse dada uma última oportunidade. As coisas que nunca tinha antes feito. Acreditaria, uma primeira vez, no amor – que precisaria de ficar com ele para ficar com tudo o resto. E, isso, é irónico.
Agosto 12, 2007

Ah! O que eu gostava de poder andar – ou melhor, de poder partir. De andar em frente ou de ir para trás e todas as coisas ficarem no mesmo sítio – e eu na direcção de mais! Que me pudesse separar das coisas à medida que elas acabam – só pedia, talvez, que elas não acabassem antes de eu passar por elas. Que o mundo que deixo para trás não ande para a frente – e me ultrapasse. E, finalmente, que o Céu fosse todo feito de ar, e que o pudesse expirar como se fosse um charuto caro.
Agosto 01, 2007


- Porque ainda me esperas se já não esperas nada de mim?
Não nasce nada aqui - respondeu, levando o dedo indicador ao olho direito. E, o que é pior, já não morre nada também. Dançam. Todos dançam à frente dos meus olhos, esquecendo que eu ainda aqui estou. Depois cansam-se e deslizam pelo meu nariz. Aí a imensa comichão faz-me espirrar, e sei que ainda estou viva.
- És deliciosa.
A infusão de sexo absorveu o meu amor - arrefece-me um pouco, e verás que já não tenho sabor.
- Não. Lembro-me de te amar à velocidade de uma estrada rente a um mar demasiado fundo.
E por isso compraste um barco encalhado onde me viste envelhecer.
Julho 27, 2007
Lábios com morangos
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